sexta-feira, 3 de julho de 2009

Discreto encontro



A barba grisalha denuncia estar ele perto dos 50.
Ela, perfumada e bem arrumada para o frio carioca, segura um livro junto ao peito o que lhe dá um certo ar professoral e o conjunto da obra lhe confere um irresistível charme.
Encontram-se no local e horas estabelecidos e sobem as escadarias do fino e, acima de tudo, discretíssimo restaurante com vista para a Baía de Guanabara.
Ele, elegante, deixa que a vista para o Pão de Açúcar fique para ela. Justifica-se dizendo que aos seus olhos ela lhe basta.
Ela fica rubra e abaixa a cabeça num sorriso tímido.
Iniciam uma conversa tranquila, ele no chope meio aguado desses servidos em churrascarias, ela no suco de tomates.
Ao terceiro chope aguado dele e tendo ela partido pro vinho, a conversa se solta mais. Falam sobre trabalho, crise, flores, risos, saudades, nuvens, casos, florestas, literatura, comédia, girassóis, reencarnação, filmes, livros, futebol, caminhadas, colesterol, rituais, dinheiro, planos, sonhos, medos, filhos... Maridos e esposas, não!
Resolvem, a essa altura, comer alguma coisa.
Ela se serve de verduras frescas e frango.
Ele pega um pouco de tudo e coloca dois pedaços de sashimi no canto do prato.
Ela sorri quando retornam à mesa e pergunta se ele pretende comer o sashimi com garfo e faca.
Ele diz que sim.
Ela faz um pedido ao garçom que num piscar de olhos retorna com um envelope que ela empurra na direção dele.
Ele pede uma aula para usar aqueles pauzinhos e ela, confiante e satisfeita, lhe dá, a aula.
Ele aprende tão rápido que ela fica imaginando a hipótese dele apenas fazer-se de desentendido só para... sabe-se lá pra que... coisas de homem.
O chope aguado desce igual água. O vinho... bem o vinho deixa ela vermelhinha e o riso fácil se torna cada vez mais fácil.
Ele lembra do livro que ela trouxera junto ao peito, agora jogado numa cadeira, embaixo da bolsa e do casaco dela.
Ela explica que o livro é de sua autoria. Um romance que narra a trajetória de um casal de jovens com todos os dramas da adolescência e juventude. Vaidosa pela bela escrita, ela lê trechos, entona vozes, recita poesias...
Ele, atento na medida do possível, elogia o trabalho e confessa já ter-se aventuado pelo ramo editorial, mas nada conseguira de concreto.
Ela consulta o relógio, pede licença, liga o celular e faz uma chamada. Parece estar adiando alguns compromissos com desculpas esfarrapadas.
Ele, sem se fazer de rogado, pega o seu celular e faz a mesmíssima coisa.
Nesse momento, um grupo de jovens repórteres chega numa pouco contida algazarra quebrando a protocolar calmaria daquele ambiente e se instala numa mesa ao lado.
Ela olha para ele sentindo-se pouco à vontade.
Ele, mesmo um pouco alto pelo chope aguado, tenta tranquilizá-la, mas percebe um certo burburinho e olhadas indiscretas desferidas pelos jovens. Tudo leva a crer que eles foram reconhecidos...
Ele chama o garçom, pede a conta e paga no cartão de débito.
Ela vai ao toillette retocar a maquiagem, sob os olhares nada auspiciosos dos jovens ávidos por uma matéria sensacionalista.
Saem.
Ela toma um táxi amarelo.
Ele segue rumo às barcas.
Maldita curiosidade desse povo!
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quarta-feira, 17 de junho de 2009

Batman e Robin




Lú chega no trabalho e é recebida por Batman e Robin. Mas, não se engane, a dupla dinâmica não é aquela que todos conhecemos e sim dois gatinhos, magros e desnutridos, mas mesmo assim, alegres, espertos e brincalhões.
A empresa em que Lú trabalha é um clube e, dessa forma, muito espaçosa. Lugar ideal para que os felinos se abriguem. Só que a população dos gatos se multiplicou rapidamente em um curto espaço de tempo e a empresa, motivada pelas constantes reclamações de seus associados, proíbe que os funcionários alimentem os bichinhos.
Mas o coraçãozinho da Lú é enorme e a sua compaixão pelos animais abandonados é infinitamente maior.
Resolve ela adotar os dois pequeninos e todo dia leva na sua bolsa um punhado de ração para, escondidinho, alimentá-los.
E assim... passam-se alguns dias.
Até que, já estando os gatinhos mais gordinhos, Lú é surpreendida pelo diretor da empresa.
— Luciana, você não sabe que é probido alimentar esses bichos?
Lú, sem demonstrar surpresa, responde:
— Eu vou alimentar esses filhotes até que eles consigam arrumar comida por conta própria.
— E o que vai fazer quando aparecerem outros filhotes?
— pergunta, incisivo, o diretor.
— Acho que só vocês podem fazer alguma coisa para que não apareçam mais —
manda Lú.
— Qual a sua sugestão?
— Antes dos gatos aparecerem, o clube era infestado por ratos. Acho que a permanência deles mantém o clube livre dos roedores. Concordo que a superpopulação atrapalha e gera reclamações e só com a castração esse problema é resolvido. A Suipa faz esse serviço gratuitamente.
— Você não acha que é muito mais simples jogá-los no mar...
— fala ironicamente o diretor.
— E o senhor sabe que existe uma lei de amparo aos animais e qualquer forma de crueldade pode punir o causador com prisão e multa?
Citar leis em discussões com dirigentes de empresa é complicado porque eles sempre se acham acima delas. Visivelmente contrariado e com a voz alterada, o diretor fala, já saindo, em tom de descaso:
— Mas se nesse país nem leis de amparo aos seres humanos são cumpridas, imagina se farão cumprir uma que ampara gatos vira-latas... Ora, tenha paciência...
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Mesmo sem ter a mínima razão, ele tinha razão. Ela mesma tinha ligado para alguns órgãos de proteção aos animais para se informar e não teve boa recepção. Diziam que estavam lotados de animais abandonados, não tinham viaturas, enfim, não demonstraram o mínimo interesse em cumprir a lei.
Lú não conseguia imaginar como alguém poderia ser tão cruel com seres tão dóceis, que, naquele momento, com suas barriguinhas momentaneamente cheias, brincavam ao sol.
O diretor segue em direção da sala do presidente. Com certeza iria relatar o ocorrido e Lú seria repreendida.
Mas Lú não se importava em ser chamada a atenção.
O que ela queria mesmo, de verdade, era que essa história tivesse um final feliz...
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junho, 2009
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terça-feira, 27 de janeiro de 2009

Wally



Lembro-me do dia que o escolhi, aliás, que ele me escolheu.
Estava exposto ao lado de mais de uma dúzia da sua espécie. Passei, olhei para ele... voltei, olhei de novo... quando percebi, lá estava ele comigo.
Era feriado de 12 de outubro e o shopping estava lotado.
Na praça da alimentação, pensei na hipótese de lhe dar um pouco do meu suco de abacaxi com hortelã. Apesar da sua aparência saudável, achei que estivesse com sede ou carente de algo... quem saberia ao certo?
Chegando em casa deixei claro para ele que o havia comprado para dar de presente para uma menina que faria aniversário no mês seguinte. Wally ficou um tiquinho desconfiado. Talvez inibido por saber que uma menina cuidaria dele...
Durante o período que permaneceu comigo, procurei tratá-lo da melhor forma possível.
Quando o levava para tomar sol, ele se esparramava todo no que eu percebia ser uma forma de agradecer aquele toque prazeroso e aconchegante da Mãe Natureza.
No Natal, caía uma chuva fininha e Wally passou a noite no jardim...
Acordei, na madrugada, assustado com o temporal... Precisava resgatá-lo daquela tempestade... Saí pelo quintal e me deparei com ele todo contente tomando banho de chuva e se encantando com a claridade dos relâmpagos...
Uma vez, e só uma única vez, o gato, curioso desde sempre, se aproximou dele e começou a cheirá-lo... Wally, temeroso em ver subtraídas algumas de suas partes e não tendo a mínima intenção, nem composição para virar remédio expelente de bola de pelo ou, pior, ser alagado por algum líquido por ele desconhecido, deu uma leve espetada no nariz do gato estressado, que não se fez de rogado e entendeu o recado.
Três meses e vários dias se passaram, alguns acertos e desacertos até que a data, o local e a razão fossem, finalmente, combinados.
Na manhã daquele dia, uma segunda-feira, véspera de feriado, dei uma olhadinha no Wally. Eu já estava tão acostumado com ele que não o achava mais com cara de presente. Resolvi levá-lo para dar um trato no quiosque da Rua São José.
Lá, a balconista sugeriu que o enfeitasse com um babado cor-de-rosa... Ecaaa!!! Repudiamos a escolha. Imagina se iam vestir o Wally com cor de menina... Ele é macho... MACHO! Assustada, a moça apontou, assim meio desorientada, para um babadinho amarelo.. Concordamos e saímos da loja a caminho do ponto de táxi da Nilo Peçanha.
O janeiro calorento e desequilibradamente chuvoso foi o tema do debate com o motorista de táxi, um senhor de meia idade, botafoguense de fala incisiva e contestadora que em muito me fazia lembrar um antigo professor de química. E quanto mais ele falava do aquecimento global mais eu pensava no Wally, suando em bicas, espremido na bolsa colorida, enfiado naquele decente babadinho amarelo.
Numa das vezes que o meu interlocutor se empolgou e retoricamente profetizou que em pouco tempo toda a vegetação do planeta estaria reduzida a cinzas pelos efeitos devastadores do buraco na camada de ozônio, eu intervi usando um providencial “tá chegando?”. Wally não merecia ficar escutando aquelas barbaridades...
Conferi o endereço e indiquei ao motorista: “é ali!”. Paguei a corrida e desci do táxi. Faltavam 10 minutos para o horário estabelecido, mas estava de bom tamanho. Gosto de chegar um pouco mais cedo. É de praxe.
Apareci no portão de entrada do prédio e o porteiro me atendeu com um cordial “quem é?”. Era um senhor com características nordestinas, baixinho, careca e de óculos. Falei da entrega que tinha para uma certa menina naquele endereço.
Imaginei o Wally se espichando todo para saber onde ele estava indo morar. Mas ele ficou ali, bem quietinho.
Disse e repeti ao porteiro — fiquei na dúvida se me fiz entender da primeira vez — para que não esquecesse Wally num canto porque ele já tinha feito uma viagem de algumas horas e deveria estar com fome, sede e um calor danado...
Fui saindo como se ainda tivesse que fazer alguma coisa por ali...
Talvez devesse perguntar se Wally ficaria bem, desejar-lhe boa sorte, brincar que ele tinha subido na vida, que ia se tornar torcedor do Fluminense, dar-lhe um adeus ou, quem sabe, um até breve...
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janeiro, 19, 2008