
Lembro-me do dia que o escolhi, aliás, que ele me escolheu.
Estava exposto ao lado de mais de uma dúzia da sua espécie. Passei, olhei para ele... voltei, olhei de novo... quando percebi, lá estava ele comigo.
Era feriado de 12 de outubro e o shopping estava lotado.
Na praça da alimentação, pensei na hipótese de lhe dar um pouco do meu suco de abacaxi com hortelã. Apesar da sua aparência saudável, achei que estivesse com sede ou carente de algo... quem saberia ao certo?
Chegando em casa deixei claro para ele que o havia comprado para dar de presente para uma menina que faria aniversário no mês seguinte. Wally ficou um tiquinho desconfiado. Talvez inibido por saber que uma menina cuidaria dele...
Durante o período que permaneceu comigo, procurei tratá-lo da melhor forma possível.
Quando o levava para tomar sol, ele se esparramava todo no que eu percebia ser uma forma de agradecer aquele toque prazeroso e aconchegante da Mãe Natureza.
Quando o levava para tomar sol, ele se esparramava todo no que eu percebia ser uma forma de agradecer aquele toque prazeroso e aconchegante da Mãe Natureza.
No Natal, caía uma chuva fininha e Wally passou a noite no jardim...
Acordei, na madrugada, assustado com o temporal... Precisava resgatá-lo daquela tempestade... Saí pelo quintal e me deparei com ele todo contente tomando banho de chuva e se encantando com a claridade dos relâmpagos...
Uma vez, e só uma única vez, o gato, curioso desde sempre, se aproximou dele e começou a cheirá-lo... Wally, temeroso em ver subtraídas algumas de suas partes e não tendo a mínima intenção, nem composição para virar remédio expelente de bola de pelo ou, pior, ser alagado por algum líquido por ele desconhecido, deu uma leve espetada no nariz do gato estressado, que não se fez de rogado e entendeu o recado.
Três meses e vários dias se passaram, alguns acertos e desacertos até que a data, o local e a razão fossem, finalmente, combinados.
Na manhã daquele dia, uma segunda-feira, véspera de feriado, dei uma olhadinha no Wally. Eu já estava tão acostumado com ele que não o achava mais com cara de presente. Resolvi levá-lo para dar um trato no quiosque da Rua São José.
Lá, a balconista sugeriu que o enfeitasse com um babado cor-de-rosa... Ecaaa!!! Repudiamos a escolha. Imagina se iam vestir o Wally com cor de menina... Ele é macho... MACHO! Assustada, a moça apontou, assim meio desorientada, para um babadinho amarelo.. Concordamos e saímos da loja a caminho do ponto de táxi da Nilo Peçanha.
O janeiro calorento e desequilibradamente chuvoso foi o tema do debate com o motorista de táxi, um senhor de meia idade, botafoguense de fala incisiva e contestadora que em muito me fazia lembrar um antigo professor de química. E quanto mais ele falava do aquecimento global mais eu pensava no Wally, suando em bicas, espremido na bolsa colorida, enfiado naquele decente babadinho amarelo.
Numa das vezes que o meu interlocutor se empolgou e retoricamente profetizou que em pouco tempo toda a vegetação do planeta estaria reduzida a cinzas pelos efeitos devastadores do buraco na camada de ozônio, eu intervi usando um providencial “tá chegando?”. Wally não merecia ficar escutando aquelas barbaridades...
Conferi o endereço e indiquei ao motorista: “é ali!”. Paguei a corrida e desci do táxi. Faltavam 10 minutos para o horário estabelecido, mas estava de bom tamanho. Gosto de chegar um pouco mais cedo. É de praxe.
Apareci no portão de entrada do prédio e o porteiro me atendeu com um cordial “quem é?”. Era um senhor com características nordestinas, baixinho, careca e de óculos. Falei da entrega que tinha para uma certa menina naquele endereço.
Imaginei o Wally se espichando todo para saber onde ele estava indo morar. Mas ele ficou ali, bem quietinho.
Imaginei o Wally se espichando todo para saber onde ele estava indo morar. Mas ele ficou ali, bem quietinho.
Disse e repeti ao porteiro — fiquei na dúvida se me fiz entender da primeira vez — para que não esquecesse Wally num canto porque ele já tinha feito uma viagem de algumas horas e deveria estar com fome, sede e um calor danado...
Fui saindo como se ainda tivesse que fazer alguma coisa por ali...
Talvez devesse perguntar se Wally ficaria bem, desejar-lhe boa sorte, brincar que ele tinha subido na vida, que ia se tornar torcedor do Fluminense, dar-lhe um adeus ou, quem sabe, um até breve...
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janeiro, 19, 2008
