quinta-feira, 2 de junho de 2011

Errare humanum est

Não tinha ideia o que seria da sua vida dali pra frente. Na madrugada fria naquela praça estranha seus pensamentos levavam até a mãe que, bem distante dali, com toda certeza, chorava o choro da mãe amargurada, impotente e aflita com os acontecimentos que recaíram sobre ela como uma bomba.
Lembrou das pessoas que teve que deixar para trás e sentiu um pouco de vergonha...
A tia a quem a mãe o confiara, e a quem sempre teve muita consideração, de um tempo para cá vinha lhe tratando com indiferença e, a gota d’água: o culpou descaradamente de furto.
Não tinha clima para permanecer mais por lá... Mas não tinha lugar para ir também... A rua era a solução.... Arrumou a mochila com seus poucos pertences e saiu pela madrugada.
Pela madrugada fria andou, andou, andou por mais de duas horas e parou ali naquela praça estranha.
Acendeu um cigarro e os pensamentos se avolumavam em sua mente.
Jogos, vícios, dinheiro, trabalho, escolhas, amizades, namorada, filho, casa, tia, primos, mãe... pai...
Nesse instante sentiu algo se aproximando pelo seu lado... era um cachorro de rua que, provavelmente, queria algo para comer.
Tentou afastá-lo, mas ele insistia em permanecer bem ao seu pé, olhando com um olhar ao mesmo tempo triste e protetor.
Um movimento na rua em frente e, num relance percebeu que duas pessoas em uma motocicleta assaltavam um casal que passava. O cachorro latiu baixinho como que insistisse para que se levantasse e fosse para onde ele indicava. Percebendo que poderia se tornar a próxima vítima dos assaltantes, seguiu o cãozinho que, vez por outra, parava e olhava como que para se certificar se estava mesmo aceitando ser guiado por ele.
Lembrou-se de um primo que morava por aquelas bandas mas não sabia exatamente onde era. Aquele lugar lhe causava uma certa estranheza, as ruas escuras e enlameadas se tornavam assustadoras.
No cansaço das horas que passavam percebeu o quanto estava sendo ridículo seguindo um vira-latas sem dono que, no mínimo, estaria o levando para um lixão onde, provavelmente, era o local onde conseguia comida. Parou, sentou no caminho... e chorou...
Chorou o choro que só os homens amargurados e solitários choram...
Sabia que as pessoas nunca acreditaram nele. Sabia....
Sabia também que ele mesmo fez pouca coisa para que as pessoas acreditassem nele... Também sabia...
O cachorro agora olhava por baixo de seus braços com aquele olhar... triste e protetor....
Lembrou da sua falecida vó que sempre o protegera.
Lembrou da mãe, agora tão triste com tudo isso, rezando para que o poder divino lhe desse juízo e o afastasse de todo o mal.
Lembrou da namorada que sempre fora tão paciente com ele, mesmo nos piores momentos.
O cachorro parecia insistir para que não mais chorasse e o seguisse novamente.
Não tinha mesmo muita escolha.
Andou por mais de uma hora na companhia daquele que, naquele momento, era o único ser que queria a sua companhia.
Acabou chegando num local que lhe lembrava alguma coisa... Seria um
dé-já vu ou já havia passado por ali?.... É claro! A casa do tal primo que não sabia onde era e que talvez pudesse lhe ajudar por um tempo! Era a casa, com certeza!
Bateu na porta. Sabia que era tarde... Mas era uma urgência. Ele entenderia.
Depois de algumas batidas, uma luz se acendeu e ele surgiu na porta que se abriu.
Explicou para ele a situação e ele mandou que entrasse. Entendera que precisava de um apoio por uns tempos para dar uma ajeitada na vida.
Mas... o cachorro... claro.... Para o cachorro ter vindo diretamente para cá ele devia morar aqui. E o primo o seu dono.
Perguntou ao primo.
Não. Não era. Nunca tivera cachorro.
Voltou para pegá-lo. Queria aquele seu novo amigo com ele para sempre.
Procurou, procurou... Chamou, assoviou... Nada!
A rua estava totalmente vazia.
O primo, sonolento, mandou que entrasse.... Já era tarde demais... Ou seria cedo demais?
Estava totalmente desorientado...
O sol já apontava, um belo dia logo amanheceria.
O tempo haveria de dizer se seria o prenúncio de um novo dia...
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