Não tinha ideia o que seria da sua vida dali pra frente. Na madrugada fria naquela praça estranha seus pensamentos levavam até a mãe que, bem distante dali, com toda certeza, chorava o choro da mãe amargurada, impotente e aflita com os acontecimentos que recaíram sobre ela como uma bomba.
Lembrou das pessoas que teve que deixar para trás e sentiu um pouco de vergonha...
A tia a quem a mãe o confiara, e a quem sempre teve muita consideração, de um tempo para cá vinha lhe tratando com indiferença e, a gota d’água: o culpou descaradamente de furto.
Não tinha clima para permanecer mais por lá... Mas não tinha lugar para ir também... A rua era a solução.... Arrumou a mochila com seus poucos pertences e saiu pela madrugada.
Pela madrugada fria andou, andou, andou por mais de duas horas e parou ali naquela praça estranha.
Acendeu um cigarro e os pensamentos se avolumavam em sua mente.
Jogos, vícios, dinheiro, trabalho, escolhas, amizades, namorada, filho, casa, tia, primos, mãe... pai...
Nesse instante sentiu algo se aproximando pelo seu lado... era um cachorro de rua que, provavelmente, queria algo para comer.
Tentou afastá-lo, mas ele insistia em permanecer bem ao seu pé, olhando com um olhar ao mesmo tempo triste e protetor.
Um movimento na rua em frente e, num relance percebeu que duas pessoas em uma motocicleta assaltavam um casal que passava. O cachorro latiu baixinho como que insistisse para que se levantasse e fosse para onde ele indicava. Percebendo que poderia se tornar a próxima vítima dos assaltantes, seguiu o cãozinho que, vez por outra, parava e olhava como que para se certificar se estava mesmo aceitando ser guiado por ele.
Lembrou-se de um primo que morava por aquelas bandas mas não sabia exatamente onde era. Aquele lugar lhe causava uma certa estranheza, as ruas escuras e enlameadas se tornavam assustadoras.
No cansaço das horas que passavam percebeu o quanto estava sendo ridículo seguindo um vira-latas sem dono que, no mínimo, estaria o levando para um lixão onde, provavelmente, era o local onde conseguia comida. Parou, sentou no caminho... e chorou...
Chorou o choro que só os homens amargurados e solitários choram...
Sabia que as pessoas nunca acreditaram nele. Sabia....
Sabia também que ele mesmo fez pouca coisa para que as pessoas acreditassem nele... Também sabia...
O cachorro agora olhava por baixo de seus braços com aquele olhar... triste e protetor....
Lembrou da sua falecida vó que sempre o protegera.
Lembrou da mãe, agora tão triste com tudo isso, rezando para que o poder divino lhe desse juízo e o afastasse de todo o mal.
Lembrou da namorada que sempre fora tão paciente com ele, mesmo nos piores momentos.
O cachorro parecia insistir para que não mais chorasse e o seguisse novamente.
Não tinha mesmo muita escolha.
Andou por mais de uma hora na companhia daquele que, naquele momento, era o único ser que queria a sua companhia.
Acabou chegando num local que lhe lembrava alguma coisa... Seria um
dé-já vu ou já havia passado por ali?.... É claro! A casa do tal primo que não sabia onde era e que talvez pudesse lhe ajudar por um tempo! Era a casa, com certeza!
Bateu na porta. Sabia que era tarde... Mas era uma urgência. Ele entenderia.
Depois de algumas batidas, uma luz se acendeu e ele surgiu na porta que se abriu.
Explicou para ele a situação e ele mandou que entrasse. Entendera que precisava de um apoio por uns tempos para dar uma ajeitada na vida.
Mas... o cachorro... claro.... Para o cachorro ter vindo diretamente para cá ele devia morar aqui. E o primo o seu dono.
Perguntou ao primo.
Não. Não era. Nunca tivera cachorro.
Voltou para pegá-lo. Queria aquele seu novo amigo com ele para sempre.
Procurou, procurou... Chamou, assoviou... Nada!
A rua estava totalmente vazia.
O primo, sonolento, mandou que entrasse.... Já era tarde demais... Ou seria cedo demais?
Estava totalmente desorientado...
O sol já apontava, um belo dia logo amanheceria.
O tempo haveria de dizer se seria o prenúncio de um novo dia...
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quinta-feira, 2 de junho de 2011
quarta-feira, 7 de abril de 2010
sábado, 27 de março de 2010
Uma breve história sobre (o fim de) quase tudo
Sempre que fico engarrafado penso no teletransporte. Não resta dúvida, na minha opinião, que num futuro não tão distante será essa a única alternativa viável para se chegar a algum lugar...
É claro que o governo vai lançar o vale-teletransporte e surgirão também os teletransportes alternativos para a fúria dos teletransportadores de elite.
E, em se falando de elite, os teletransportes de primeira classe provavelmente garantirão a chegada do passageiro ao seu destino inteirinho da silva, enquanto que os outros...
Haja Procon...
:
Ouvi bem mais de cinco vezes que é muito triste ver uma livraria de rua fechar, assim como ouvi várias afirmações que é igualmente triste ver um cinema de bairro fechar também.
O futuro da impessoalidade está cada dia mais presente... O futuro das mega-livrarias onde se compra de tudo, até livros... O futuro dos cinemas de shoppings onde se faz de tudo até se assiste a um filminho...
:
Quarta de manhã e por trás do balcão da livraria, além das estantes bem desfalcadas e da poeira que se acumula nos livros que restam, vejo que a chuva começa a cair, causando ainda mais transtornos nas calçadas sujas e nos paralelepípedos irregulares da Rosário.
:
Chantala chega por volta das 11 todos os dias. Olha quase tudo, se encanta com tudo, faz orçamento de tudo, tudo... e chega a triste conclusão que não vai poder levar quase nada. Tem um livro maravilhoso com imagens do Brasil colonial que fiz um preço especial para que ela levasse. Disse que preferia saber que o livro estivesse com ela do que perdido pelos corredores escuros de um Sebo da Primeiro de Março... Ela ficou encantada... Mas não levou...
:
Estive desfolhando “A lição final”, do prof. Randy Pausch. Uma verdadeira aula sobre vida, proferida por alguém que está se despedindo dela prematuramente. Na dedicatória, as palavras falam de sonhos: “Em agradecimento aos meus pais que me permitiram sonhar, e na expectativa dos sonhos que meus filhos terão”...
Para quem não sabe Randy Pausch, 47 anos, pai de três filhos e casado com a mulher de seus sonhos, vendo-se acometido por uma grave doença que consumirá sua vida em poucos meses resolve deixar como legado uma palestra. Essa palestra percorre o mundo, sua mensagem comove milhões de pessoas, seu exemplo faz-nos reavaliar o verdadeiro sentido da efêmera vida.
:
O “garimpeiro de livraria em liquidação” chega já olhando para as prateleiras, não incomoda ninguém, nada pergunta. Força a vista por trás dos óculos, sopra a poeira, senta no chão... Quase nunca encontra o que quer, mas se engana quem pensa que ele sai de mãos abanando. Ele acaba levando o que nem pensava que queria. E sai satisfeito, até o dia seguinte ou até encontrar mais uma livraria com as portas arriadas para nunca mais se abrirem....
:
Mais uma livraria se fechou nesse fim de verão no Centro do Rio. e eu passei os últimos 17 dias vendendo os livros que ainda interessavam aos leitores Acho que consegui convencer aos clientes que nunca fui vendedor na minha vida mas acho, também que os convenci que sempre fui e sempre quero continuar sendo um grande apreciador do bom livro.
É claro que o governo vai lançar o vale-teletransporte e surgirão também os teletransportes alternativos para a fúria dos teletransportadores de elite.
E, em se falando de elite, os teletransportes de primeira classe provavelmente garantirão a chegada do passageiro ao seu destino inteirinho da silva, enquanto que os outros...
Haja Procon...
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Ouvi bem mais de cinco vezes que é muito triste ver uma livraria de rua fechar, assim como ouvi várias afirmações que é igualmente triste ver um cinema de bairro fechar também.
O futuro da impessoalidade está cada dia mais presente... O futuro das mega-livrarias onde se compra de tudo, até livros... O futuro dos cinemas de shoppings onde se faz de tudo até se assiste a um filminho...
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Quarta de manhã e por trás do balcão da livraria, além das estantes bem desfalcadas e da poeira que se acumula nos livros que restam, vejo que a chuva começa a cair, causando ainda mais transtornos nas calçadas sujas e nos paralelepípedos irregulares da Rosário.
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Chantala chega por volta das 11 todos os dias. Olha quase tudo, se encanta com tudo, faz orçamento de tudo, tudo... e chega a triste conclusão que não vai poder levar quase nada. Tem um livro maravilhoso com imagens do Brasil colonial que fiz um preço especial para que ela levasse. Disse que preferia saber que o livro estivesse com ela do que perdido pelos corredores escuros de um Sebo da Primeiro de Março... Ela ficou encantada... Mas não levou...
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Estive desfolhando “A lição final”, do prof. Randy Pausch. Uma verdadeira aula sobre vida, proferida por alguém que está se despedindo dela prematuramente. Na dedicatória, as palavras falam de sonhos: “Em agradecimento aos meus pais que me permitiram sonhar, e na expectativa dos sonhos que meus filhos terão”...
Para quem não sabe Randy Pausch, 47 anos, pai de três filhos e casado com a mulher de seus sonhos, vendo-se acometido por uma grave doença que consumirá sua vida em poucos meses resolve deixar como legado uma palestra. Essa palestra percorre o mundo, sua mensagem comove milhões de pessoas, seu exemplo faz-nos reavaliar o verdadeiro sentido da efêmera vida.
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O “garimpeiro de livraria em liquidação” chega já olhando para as prateleiras, não incomoda ninguém, nada pergunta. Força a vista por trás dos óculos, sopra a poeira, senta no chão... Quase nunca encontra o que quer, mas se engana quem pensa que ele sai de mãos abanando. Ele acaba levando o que nem pensava que queria. E sai satisfeito, até o dia seguinte ou até encontrar mais uma livraria com as portas arriadas para nunca mais se abrirem....
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Mais uma livraria se fechou nesse fim de verão no Centro do Rio. e eu passei os últimos 17 dias vendendo os livros que ainda interessavam aos leitores Acho que consegui convencer aos clientes que nunca fui vendedor na minha vida mas acho, também que os convenci que sempre fui e sempre quero continuar sendo um grande apreciador do bom livro.
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sexta-feira, 3 de julho de 2009
Discreto encontro

A barba grisalha denuncia estar ele perto dos 50.
Ela, perfumada e bem arrumada para o frio carioca, segura um livro junto ao peito o que lhe dá um certo ar professoral e o conjunto da obra lhe confere um irresistível charme.
Encontram-se no local e horas estabelecidos e sobem as escadarias do fino e, acima de tudo, discretíssimo restaurante com vista para a Baía de Guanabara.
Ele, elegante, deixa que a vista para o Pão de Açúcar fique para ela. Justifica-se dizendo que aos seus olhos ela lhe basta.
Encontram-se no local e horas estabelecidos e sobem as escadarias do fino e, acima de tudo, discretíssimo restaurante com vista para a Baía de Guanabara.
Ele, elegante, deixa que a vista para o Pão de Açúcar fique para ela. Justifica-se dizendo que aos seus olhos ela lhe basta.
Ela fica rubra e abaixa a cabeça num sorriso tímido.
Iniciam uma conversa tranquila, ele no chope meio aguado desses servidos em churrascarias, ela no suco de tomates.
Ao terceiro chope aguado dele e tendo ela partido pro vinho, a conversa se solta mais. Falam sobre trabalho, crise, flores, risos, saudades, nuvens, casos, florestas, literatura, comédia, girassóis, reencarnação, filmes, livros, futebol, caminhadas, colesterol, rituais, dinheiro, planos, sonhos, medos, filhos... Maridos e esposas, não!
Iniciam uma conversa tranquila, ele no chope meio aguado desses servidos em churrascarias, ela no suco de tomates.
Ao terceiro chope aguado dele e tendo ela partido pro vinho, a conversa se solta mais. Falam sobre trabalho, crise, flores, risos, saudades, nuvens, casos, florestas, literatura, comédia, girassóis, reencarnação, filmes, livros, futebol, caminhadas, colesterol, rituais, dinheiro, planos, sonhos, medos, filhos... Maridos e esposas, não!
Resolvem, a essa altura, comer alguma coisa.
Ela se serve de verduras frescas e frango.
Ele pega um pouco de tudo e coloca dois pedaços de sashimi no canto do prato.
Ela sorri quando retornam à mesa e pergunta se ele pretende comer o sashimi com garfo e faca.
Ela sorri quando retornam à mesa e pergunta se ele pretende comer o sashimi com garfo e faca.
Ele diz que sim.
Ela faz um pedido ao garçom que num piscar de olhos retorna com um envelope que ela empurra na direção dele.
Ele pede uma aula para usar aqueles pauzinhos e ela, confiante e satisfeita, lhe dá, a aula.
Ele aprende tão rápido que ela fica imaginando a hipótese dele apenas fazer-se de desentendido só para... sabe-se lá pra que... coisas de homem.
O chope aguado desce igual água. O vinho... bem o vinho deixa ela vermelhinha e o riso fácil se torna cada vez mais fácil.
Ele lembra do livro que ela trouxera junto ao peito, agora jogado numa cadeira, embaixo da bolsa e do casaco dela.
Ela explica que o livro é de sua autoria. Um romance que narra a trajetória de um casal de jovens com todos os dramas da adolescência e juventude. Vaidosa pela bela escrita, ela lê trechos, entona vozes, recita poesias...
Ele, atento na medida do possível, elogia o trabalho e confessa já ter-se aventuado pelo ramo editorial, mas nada conseguira de concreto.
Ela consulta o relógio, pede licença, liga o celular e faz uma chamada. Parece estar adiando alguns compromissos com desculpas esfarrapadas.
O chope aguado desce igual água. O vinho... bem o vinho deixa ela vermelhinha e o riso fácil se torna cada vez mais fácil.
Ele lembra do livro que ela trouxera junto ao peito, agora jogado numa cadeira, embaixo da bolsa e do casaco dela.
Ela explica que o livro é de sua autoria. Um romance que narra a trajetória de um casal de jovens com todos os dramas da adolescência e juventude. Vaidosa pela bela escrita, ela lê trechos, entona vozes, recita poesias...
Ele, atento na medida do possível, elogia o trabalho e confessa já ter-se aventuado pelo ramo editorial, mas nada conseguira de concreto.
Ela consulta o relógio, pede licença, liga o celular e faz uma chamada. Parece estar adiando alguns compromissos com desculpas esfarrapadas.
Ele, sem se fazer de rogado, pega o seu celular e faz a mesmíssima coisa.
Nesse momento, um grupo de jovens repórteres chega numa pouco contida algazarra quebrando a protocolar calmaria daquele ambiente e se instala numa mesa ao lado.
Nesse momento, um grupo de jovens repórteres chega numa pouco contida algazarra quebrando a protocolar calmaria daquele ambiente e se instala numa mesa ao lado.
Ela olha para ele sentindo-se pouco à vontade.
Ele, mesmo um pouco alto pelo chope aguado, tenta tranquilizá-la, mas percebe um certo burburinho e olhadas indiscretas desferidas pelos jovens. Tudo leva a crer que eles foram reconhecidos...
Ele chama o garçom, pede a conta e paga no cartão de débito.
Ela vai ao toillette retocar a maquiagem, sob os olhares nada auspiciosos dos jovens ávidos por uma matéria sensacionalista.
Saem.
Ela toma um táxi amarelo.
Ele segue rumo às barcas.
Maldita curiosidade desse povo!
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Ele, mesmo um pouco alto pelo chope aguado, tenta tranquilizá-la, mas percebe um certo burburinho e olhadas indiscretas desferidas pelos jovens. Tudo leva a crer que eles foram reconhecidos...
Ele chama o garçom, pede a conta e paga no cartão de débito.
Ela vai ao toillette retocar a maquiagem, sob os olhares nada auspiciosos dos jovens ávidos por uma matéria sensacionalista.
Saem.
Ela toma um táxi amarelo.
Ele segue rumo às barcas.
Maldita curiosidade desse povo!
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quarta-feira, 17 de junho de 2009
Batman e Robin

Lú chega no trabalho e é recebida por Batman e Robin. Mas, não se engane, a dupla dinâmica não é aquela que todos conhecemos e sim dois gatinhos, magros e desnutridos, mas mesmo assim, alegres, espertos e brincalhões.
A empresa em que Lú trabalha é um clube e, dessa forma, muito espaçosa. Lugar ideal para que os felinos se abriguem. Só que a população dos gatos se multiplicou rapidamente em um curto espaço de tempo e a empresa, motivada pelas constantes reclamações de seus associados, proíbe que os funcionários alimentem os bichinhos.
Mas o coraçãozinho da Lú é enorme e a sua compaixão pelos animais abandonados é infinitamente maior.
Resolve ela adotar os dois pequeninos e todo dia leva na sua bolsa um punhado de ração para, escondidinho, alimentá-los.
E assim... passam-se alguns dias.
Até que, já estando os gatinhos mais gordinhos, Lú é surpreendida pelo diretor da empresa.
— Luciana, você não sabe que é probido alimentar esses bichos?
Lú, sem demonstrar surpresa, responde:
— Eu vou alimentar esses filhotes até que eles consigam arrumar comida por conta própria.
— E o que vai fazer quando aparecerem outros filhotes? — pergunta, incisivo, o diretor.
— Acho que só vocês podem fazer alguma coisa para que não apareçam mais — manda Lú.
— Qual a sua sugestão?
— Antes dos gatos aparecerem, o clube era infestado por ratos. Acho que a permanência deles mantém o clube livre dos roedores. Concordo que a superpopulação atrapalha e gera reclamações e só com a castração esse problema é resolvido. A Suipa faz esse serviço gratuitamente.
— Você não acha que é muito mais simples jogá-los no mar... — fala ironicamente o diretor.
— E o senhor sabe que existe uma lei de amparo aos animais e qualquer forma de crueldade pode punir o causador com prisão e multa?
A empresa em que Lú trabalha é um clube e, dessa forma, muito espaçosa. Lugar ideal para que os felinos se abriguem. Só que a população dos gatos se multiplicou rapidamente em um curto espaço de tempo e a empresa, motivada pelas constantes reclamações de seus associados, proíbe que os funcionários alimentem os bichinhos.
Mas o coraçãozinho da Lú é enorme e a sua compaixão pelos animais abandonados é infinitamente maior.
Resolve ela adotar os dois pequeninos e todo dia leva na sua bolsa um punhado de ração para, escondidinho, alimentá-los.
E assim... passam-se alguns dias.
Até que, já estando os gatinhos mais gordinhos, Lú é surpreendida pelo diretor da empresa.
— Luciana, você não sabe que é probido alimentar esses bichos?
Lú, sem demonstrar surpresa, responde:
— Eu vou alimentar esses filhotes até que eles consigam arrumar comida por conta própria.
— E o que vai fazer quando aparecerem outros filhotes? — pergunta, incisivo, o diretor.
— Acho que só vocês podem fazer alguma coisa para que não apareçam mais — manda Lú.
— Qual a sua sugestão?
— Antes dos gatos aparecerem, o clube era infestado por ratos. Acho que a permanência deles mantém o clube livre dos roedores. Concordo que a superpopulação atrapalha e gera reclamações e só com a castração esse problema é resolvido. A Suipa faz esse serviço gratuitamente.
— Você não acha que é muito mais simples jogá-los no mar... — fala ironicamente o diretor.
— E o senhor sabe que existe uma lei de amparo aos animais e qualquer forma de crueldade pode punir o causador com prisão e multa?
Citar leis em discussões com dirigentes de empresa é complicado porque eles sempre se acham acima delas. Visivelmente contrariado e com a voz alterada, o diretor fala, já saindo, em tom de descaso:
— Mas se nesse país nem leis de amparo aos seres humanos são cumpridas, imagina se farão cumprir uma que ampara gatos vira-latas... Ora, tenha paciência...
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— Mas se nesse país nem leis de amparo aos seres humanos são cumpridas, imagina se farão cumprir uma que ampara gatos vira-latas... Ora, tenha paciência...
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Mesmo sem ter a mínima razão, ele tinha razão. Ela mesma tinha ligado para alguns órgãos de proteção aos animais para se informar e não teve boa recepção. Diziam que estavam lotados de animais abandonados, não tinham viaturas, enfim, não demonstraram o mínimo interesse em cumprir a lei.
Lú não conseguia imaginar como alguém poderia ser tão cruel com seres tão dóceis, que, naquele momento, com suas barriguinhas momentaneamente cheias, brincavam ao sol.
O diretor segue em direção da sala do presidente. Com certeza iria relatar o ocorrido e Lú seria repreendida.
Mas Lú não se importava em ser chamada a atenção.
O que ela queria mesmo, de verdade, era que essa história tivesse um final feliz...
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junho, 2009
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Lú não conseguia imaginar como alguém poderia ser tão cruel com seres tão dóceis, que, naquele momento, com suas barriguinhas momentaneamente cheias, brincavam ao sol.
O diretor segue em direção da sala do presidente. Com certeza iria relatar o ocorrido e Lú seria repreendida.
Mas Lú não se importava em ser chamada a atenção.
O que ela queria mesmo, de verdade, era que essa história tivesse um final feliz...
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junho, 2009
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terça-feira, 27 de janeiro de 2009
Wally

Lembro-me do dia que o escolhi, aliás, que ele me escolheu.
Estava exposto ao lado de mais de uma dúzia da sua espécie. Passei, olhei para ele... voltei, olhei de novo... quando percebi, lá estava ele comigo.
Era feriado de 12 de outubro e o shopping estava lotado.
Na praça da alimentação, pensei na hipótese de lhe dar um pouco do meu suco de abacaxi com hortelã. Apesar da sua aparência saudável, achei que estivesse com sede ou carente de algo... quem saberia ao certo?
Chegando em casa deixei claro para ele que o havia comprado para dar de presente para uma menina que faria aniversário no mês seguinte. Wally ficou um tiquinho desconfiado. Talvez inibido por saber que uma menina cuidaria dele...
Durante o período que permaneceu comigo, procurei tratá-lo da melhor forma possível.
Quando o levava para tomar sol, ele se esparramava todo no que eu percebia ser uma forma de agradecer aquele toque prazeroso e aconchegante da Mãe Natureza.
Quando o levava para tomar sol, ele se esparramava todo no que eu percebia ser uma forma de agradecer aquele toque prazeroso e aconchegante da Mãe Natureza.
No Natal, caía uma chuva fininha e Wally passou a noite no jardim...
Acordei, na madrugada, assustado com o temporal... Precisava resgatá-lo daquela tempestade... Saí pelo quintal e me deparei com ele todo contente tomando banho de chuva e se encantando com a claridade dos relâmpagos...
Uma vez, e só uma única vez, o gato, curioso desde sempre, se aproximou dele e começou a cheirá-lo... Wally, temeroso em ver subtraídas algumas de suas partes e não tendo a mínima intenção, nem composição para virar remédio expelente de bola de pelo ou, pior, ser alagado por algum líquido por ele desconhecido, deu uma leve espetada no nariz do gato estressado, que não se fez de rogado e entendeu o recado.
Três meses e vários dias se passaram, alguns acertos e desacertos até que a data, o local e a razão fossem, finalmente, combinados.
Na manhã daquele dia, uma segunda-feira, véspera de feriado, dei uma olhadinha no Wally. Eu já estava tão acostumado com ele que não o achava mais com cara de presente. Resolvi levá-lo para dar um trato no quiosque da Rua São José.
Lá, a balconista sugeriu que o enfeitasse com um babado cor-de-rosa... Ecaaa!!! Repudiamos a escolha. Imagina se iam vestir o Wally com cor de menina... Ele é macho... MACHO! Assustada, a moça apontou, assim meio desorientada, para um babadinho amarelo.. Concordamos e saímos da loja a caminho do ponto de táxi da Nilo Peçanha.
O janeiro calorento e desequilibradamente chuvoso foi o tema do debate com o motorista de táxi, um senhor de meia idade, botafoguense de fala incisiva e contestadora que em muito me fazia lembrar um antigo professor de química. E quanto mais ele falava do aquecimento global mais eu pensava no Wally, suando em bicas, espremido na bolsa colorida, enfiado naquele decente babadinho amarelo.
Numa das vezes que o meu interlocutor se empolgou e retoricamente profetizou que em pouco tempo toda a vegetação do planeta estaria reduzida a cinzas pelos efeitos devastadores do buraco na camada de ozônio, eu intervi usando um providencial “tá chegando?”. Wally não merecia ficar escutando aquelas barbaridades...
Conferi o endereço e indiquei ao motorista: “é ali!”. Paguei a corrida e desci do táxi. Faltavam 10 minutos para o horário estabelecido, mas estava de bom tamanho. Gosto de chegar um pouco mais cedo. É de praxe.
Apareci no portão de entrada do prédio e o porteiro me atendeu com um cordial “quem é?”. Era um senhor com características nordestinas, baixinho, careca e de óculos. Falei da entrega que tinha para uma certa menina naquele endereço.
Imaginei o Wally se espichando todo para saber onde ele estava indo morar. Mas ele ficou ali, bem quietinho.
Imaginei o Wally se espichando todo para saber onde ele estava indo morar. Mas ele ficou ali, bem quietinho.
Disse e repeti ao porteiro — fiquei na dúvida se me fiz entender da primeira vez — para que não esquecesse Wally num canto porque ele já tinha feito uma viagem de algumas horas e deveria estar com fome, sede e um calor danado...
Fui saindo como se ainda tivesse que fazer alguma coisa por ali...
Talvez devesse perguntar se Wally ficaria bem, desejar-lhe boa sorte, brincar que ele tinha subido na vida, que ia se tornar torcedor do Fluminense, dar-lhe um adeus ou, quem sabe, um até breve...
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janeiro, 19, 2008
segunda-feira, 1 de dezembro de 2008
História de pescador

Pescador era o seu nome ou, pelo menos, o nome pelo qual era conhecido. Ninguém sabia ao certo se gostava de ser tratado assim, pois ele nada falava a respeito com quem quer que fosse. Muito menos se apresentara sob outro nome. Adaptara-se a ele. Adotara-o. Tornara-o seu. Uns diziam que, simplesmente, não havia outro nome.
E todo santo dia, na esquina do mercado onde armava a sua banca Pescador botava banca de especialista e era aguardado ansiosamente pela freguesia ávida por sua mercadoria de qualidade incomparável.
Mas não eram só as mulheres tagarelas que montavam a guarda à sua espera. Rondava por ali, um bando de gatos vindo de várias partes do bairro que completava a sua comissão de frente.
A verdade era que Pescador tinha mais afinidade pelos felinos do que pelas freguesas faladeiras e, entre um atendimento e outro, era visto acariciando um bichano. A sua preferida era uma gatinha branca e cinza que não se misturava com os demais. Ela ficava sempre atrás de um poste, próximo da banca. Pescador escolhia um peixe fresco e levava para ela que o devorava rapidamente. Quando se satisfazia, a gatinha demonstrava lambendo charmosamente os bigodes e dando aquela espreguiçada, depois se enroscava pelas pernas dele e por ali ficava, dona do pedaço.
Esgotados os peixes da banca, sempre por volta das duas da tarde, lá ia Pescador para a bebedeira.
E eram porres homéricos que tomava. E só chegava ao seu barraco se arrastando. O cheiro de peixe ainda exalava pelas suas entranhas.
Diziam que era pela Ivonete que bebia.
Ivonete era uma mulata boazuda, que quando passava, balançava os quartos e deixava Pescador de quatro. Ela morou por um bom tempo com ele e foi embora de um dia pra noite. Sumiu... Escafedeu-se só com a roupa do corpo. Os poucos pertences que possuía ficaram pela casa jogados, empoeirados... Amontoados de sucessivas decepções.
E eram porres homéricos que tomava. E só chegava ao seu barraco se arrastando. O cheiro de peixe ainda exalava pelas suas entranhas.
Diziam que era pela Ivonete que bebia.
Ivonete era uma mulata boazuda, que quando passava, balançava os quartos e deixava Pescador de quatro. Ela morou por um bom tempo com ele e foi embora de um dia pra noite. Sumiu... Escafedeu-se só com a roupa do corpo. Os poucos pertences que possuía ficaram pela casa jogados, empoeirados... Amontoados de sucessivas decepções.
Pescador sentiu falta dela na cama, de madrugada, quando a maré já estava baixa. Mesmo assim saiu para pescar e vender o peixe na banca. Mas naquele dia nem conseguiu botar muita banca... Estava cabisbaixo e triste...
Quando voltou pra casa, à tardinha, encontrou a irmã da mulata que deu o recado. Ivonete tinha ido pra Capital. Acompanhada. Não queria mais viver entre cheiro de peixe e bafo de cachaça...
Naquela mesma noite Pescador tomou o maior porre da sua vida. E outros se sucederam, piores ainda.
Mesmo sem se conformar com a perda, continuou ele tocando a sua vidinha tosca.
Mesmo sem se conformar com a perda, continuou ele tocando a sua vidinha tosca.
Pescava de madrugada, vendia os peixes na banca da esquina do mercado, alimentava os gatos, e..., afogava as suas mágoas na cachaça. Era tudo sempre igual.
Um ano se passou e soube que Ivonete estava de neném novo...
(Aquela filha da puta dizia que não podia ter criança. Ela não queria era ter um filho fedendo a peixe!...)
Em seu sono sobressaltado, sonhava com a mulata de volta na sua cama, que rangia quando se reviravam de tesão, suas pernas lhe trançando, fazendo o seu corpo alquebrado estremecer de prazer... Queria tê-la em seu desejo de macho... Já tão ameaçado...
Um ano se passou e soube que Ivonete estava de neném novo...
(Aquela filha da puta dizia que não podia ter criança. Ela não queria era ter um filho fedendo a peixe!...)
Em seu sono sobressaltado, sonhava com a mulata de volta na sua cama, que rangia quando se reviravam de tesão, suas pernas lhe trançando, fazendo o seu corpo alquebrado estremecer de prazer... Queria tê-la em seu desejo de macho... Já tão ameaçado...
Estava sozinho, cheirava mal... Era um bêbado...
Sua saúde, debilitada pela friagem das madrugadas, pelo consumo excessivo de álcool e cigarros, ia de mal a pior. Tossia tanto que sentia o gosto amargo do sangue na boca, misturado ao catarro quente que escarrava pelo chão da sala vazia.
Ivonete onde estaria? Talvez requebrando em algum show pra alegria dos turistas. Sofria dessa ausência de todo os dias.
O seu barraco de tábuas estava mais frio naquela noite... Pescador estava muito doente... Ardia em febre, tremores, alucinações... Chamava por Ivonete...
Pela manhã, como de costume, no mesmo local e horário de sempre, os gatos e as freguesas o aguardavam...
O seu barraco de tábuas estava mais frio naquela noite... Pescador estava muito doente... Ardia em febre, tremores, alucinações... Chamava por Ivonete...
Pela manhã, como de costume, no mesmo local e horário de sempre, os gatos e as freguesas o aguardavam...
Mas Pescador não apareceu.
Não é possível, ele nunca se atrasa! - diziam as senhoras alcoviteiras, que cansadas de tanto esperar foram comprar o peixe congelado no mercado da esquina.
Os gatos, sem perder a pose, se lambiam ao sol da manhã.
Esperaram, esperaram...
E, ao meio-dia, quando o sol esquentou, procuraram abrigo na marquise do mercado.
E foram se dispersando...
Não sabiam onde nem por que, mas seus instintos felinos mandavam buscar comida em outras bandas.
A chuva da tarde espantou os gatos pingados que ainda resistiam à espera.
Apenas uma gatinha permaneceu, atrás do poste, olhando comprido para a esquina, até o anoitecer...
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dezembro, 2008
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dezembro, 2008
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