
Pescador era o seu nome ou, pelo menos, o nome pelo qual era conhecido. Ninguém sabia ao certo se gostava de ser tratado assim, pois ele nada falava a respeito com quem quer que fosse. Muito menos se apresentara sob outro nome. Adaptara-se a ele. Adotara-o. Tornara-o seu. Uns diziam que, simplesmente, não havia outro nome.
E todo santo dia, na esquina do mercado onde armava a sua banca Pescador botava banca de especialista e era aguardado ansiosamente pela freguesia ávida por sua mercadoria de qualidade incomparável.
Mas não eram só as mulheres tagarelas que montavam a guarda à sua espera. Rondava por ali, um bando de gatos vindo de várias partes do bairro que completava a sua comissão de frente.
A verdade era que Pescador tinha mais afinidade pelos felinos do que pelas freguesas faladeiras e, entre um atendimento e outro, era visto acariciando um bichano. A sua preferida era uma gatinha branca e cinza que não se misturava com os demais. Ela ficava sempre atrás de um poste, próximo da banca. Pescador escolhia um peixe fresco e levava para ela que o devorava rapidamente. Quando se satisfazia, a gatinha demonstrava lambendo charmosamente os bigodes e dando aquela espreguiçada, depois se enroscava pelas pernas dele e por ali ficava, dona do pedaço.
Esgotados os peixes da banca, sempre por volta das duas da tarde, lá ia Pescador para a bebedeira.
E eram porres homéricos que tomava. E só chegava ao seu barraco se arrastando. O cheiro de peixe ainda exalava pelas suas entranhas.
Diziam que era pela Ivonete que bebia.
Ivonete era uma mulata boazuda, que quando passava, balançava os quartos e deixava Pescador de quatro. Ela morou por um bom tempo com ele e foi embora de um dia pra noite. Sumiu... Escafedeu-se só com a roupa do corpo. Os poucos pertences que possuía ficaram pela casa jogados, empoeirados... Amontoados de sucessivas decepções.
E eram porres homéricos que tomava. E só chegava ao seu barraco se arrastando. O cheiro de peixe ainda exalava pelas suas entranhas.
Diziam que era pela Ivonete que bebia.
Ivonete era uma mulata boazuda, que quando passava, balançava os quartos e deixava Pescador de quatro. Ela morou por um bom tempo com ele e foi embora de um dia pra noite. Sumiu... Escafedeu-se só com a roupa do corpo. Os poucos pertences que possuía ficaram pela casa jogados, empoeirados... Amontoados de sucessivas decepções.
Pescador sentiu falta dela na cama, de madrugada, quando a maré já estava baixa. Mesmo assim saiu para pescar e vender o peixe na banca. Mas naquele dia nem conseguiu botar muita banca... Estava cabisbaixo e triste...
Quando voltou pra casa, à tardinha, encontrou a irmã da mulata que deu o recado. Ivonete tinha ido pra Capital. Acompanhada. Não queria mais viver entre cheiro de peixe e bafo de cachaça...
Naquela mesma noite Pescador tomou o maior porre da sua vida. E outros se sucederam, piores ainda.
Mesmo sem se conformar com a perda, continuou ele tocando a sua vidinha tosca.
Mesmo sem se conformar com a perda, continuou ele tocando a sua vidinha tosca.
Pescava de madrugada, vendia os peixes na banca da esquina do mercado, alimentava os gatos, e..., afogava as suas mágoas na cachaça. Era tudo sempre igual.
Um ano se passou e soube que Ivonete estava de neném novo...
(Aquela filha da puta dizia que não podia ter criança. Ela não queria era ter um filho fedendo a peixe!...)
Em seu sono sobressaltado, sonhava com a mulata de volta na sua cama, que rangia quando se reviravam de tesão, suas pernas lhe trançando, fazendo o seu corpo alquebrado estremecer de prazer... Queria tê-la em seu desejo de macho... Já tão ameaçado...
Um ano se passou e soube que Ivonete estava de neném novo...
(Aquela filha da puta dizia que não podia ter criança. Ela não queria era ter um filho fedendo a peixe!...)
Em seu sono sobressaltado, sonhava com a mulata de volta na sua cama, que rangia quando se reviravam de tesão, suas pernas lhe trançando, fazendo o seu corpo alquebrado estremecer de prazer... Queria tê-la em seu desejo de macho... Já tão ameaçado...
Estava sozinho, cheirava mal... Era um bêbado...
Sua saúde, debilitada pela friagem das madrugadas, pelo consumo excessivo de álcool e cigarros, ia de mal a pior. Tossia tanto que sentia o gosto amargo do sangue na boca, misturado ao catarro quente que escarrava pelo chão da sala vazia.
Ivonete onde estaria? Talvez requebrando em algum show pra alegria dos turistas. Sofria dessa ausência de todo os dias.
O seu barraco de tábuas estava mais frio naquela noite... Pescador estava muito doente... Ardia em febre, tremores, alucinações... Chamava por Ivonete...
Pela manhã, como de costume, no mesmo local e horário de sempre, os gatos e as freguesas o aguardavam...
O seu barraco de tábuas estava mais frio naquela noite... Pescador estava muito doente... Ardia em febre, tremores, alucinações... Chamava por Ivonete...
Pela manhã, como de costume, no mesmo local e horário de sempre, os gatos e as freguesas o aguardavam...
Mas Pescador não apareceu.
Não é possível, ele nunca se atrasa! - diziam as senhoras alcoviteiras, que cansadas de tanto esperar foram comprar o peixe congelado no mercado da esquina.
Os gatos, sem perder a pose, se lambiam ao sol da manhã.
Esperaram, esperaram...
E, ao meio-dia, quando o sol esquentou, procuraram abrigo na marquise do mercado.
E foram se dispersando...
Não sabiam onde nem por que, mas seus instintos felinos mandavam buscar comida em outras bandas.
A chuva da tarde espantou os gatos pingados que ainda resistiam à espera.
Apenas uma gatinha permaneceu, atrás do poste, olhando comprido para a esquina, até o anoitecer...
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dezembro, 2008
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