segunda-feira, 20 de outubro de 2008

"Freela"



Não tinha costume de acordar tão cedo, mas naquele dia não tinha outro jeito.
Olho pela janela para ver como está a cara do tempo... É, o calor vai continuar. Recolho os CDs com os trabalhos que preparei pela madrugada. Deus queira que esteja tudo certo. Lembro-me de ter cochilado várias vezes sobre a mesa do computador. Beijo a minha Lu que dorme tranqüila na sua caminha. Se tem uma coisa que gosto, essa coisa é de me sentir pai. Não lembro mais de como é me sentir filho. Não sei mais se algum dia fui criança. Ser pai eu sempre fui, desde a criança que não lembro que fui. Saio sem tomar café, na rua sinto o ar abafado da manhã no meu rosto de barba não feita.

Sentar no Metrô àquela hora é impossível, aliás, entrar já é pura aventura. Encontro um canto ligeiramente vago e de lá observo a cara de sono do povo madrugador. Uma jovem olha para as unhas o tempo todo, parece não gostar do que vê. Uma criança se desgarra da mãe que corre feito louca atrás do pestinha pelo vagão lotado. Um homem de boné e óculos dorme a sono solto e a sua cabeça pende pro lado de uma senhora que se mexe e tosse, na vã tentativa de acordar o dorminhoco. Duas mocinhas bem vestidas conversam sobre empregos, entrevistas, chefes... Um jornal se abre ao meu lado e eu, tentado pela notícia do meu time, faço uma leitura bem dinâmica, antes que o dono vire a página.

Finalmente, chega a minha estação! Nem preciso me preocupar em sair, sou “cuspido” para fora do vagão pela enorme massa que se afunila na pequena passagem. Não havia percebido o quanto pequena é a porta do Metrô. E nem adianta reclamar das encoxadas...

O trabalho que estou levando para aprovação é o esboço de um cartaz. A pessoa que encomendou marcou comigo às 6 da manhã. Isso são horas para se ver alguma coisa? Bem, cliente é cliente e aquele clichê de que eles têm sempre razão martela a minha cabeça. Cabeça que dói... Não posso ficar com o ventilador tão próximo de mim. Mas, com os mosquitos já viciados em inseticida, só o bom e velho ventilador para afastar os predadores do meu sangue colesterado. Ainda mais com essa epidemia de dengue que assola o Rio...

Fazer freela significa ficar até as tantas da madrugada com a cara enterrada na tela do computador aprontando trabalhos, sempre com muita urgência. O pior é quando o cliente olha o esboço do trabalho, também conhecido como layout, e diz: “cara, tá ótimo, só não gostei da cor e essa figura tá muito grande, tira essa tarja, muda essa fonte, dá um destaque aqui, bota itálico ali...” Resumindo: tá tudo uma bosta!

Chego ao local marcado antes de todo mundo. Um solitário e sonolento atendente me manda sentar e aguardar. No rádio toca Start me up. Depois de insensatos minutos, chega a criatura! E, olha, milagres acontecem: o layout foi aprovado e, para não dizer que foi sem alteração, ele pediu para tirar um destaque na forma de retângulo que eu perdi preciosos 40 minutos imaginando uma forma de inserir. Talvez se aquela tarja não estivesse lá, o cliente ia querer que a colocasse. Ou será que foi preciosismo meu? Saio apressado antes que o indivíduo mude de idéia e também porque o meu expediente começa às 9, no Centro, já passam das 8:30 e eu ainda estou em Copa.

Esses freelas são a salvação da lavoura mas o desgaste é muito grande também. É comum os clientes demorarem vários dias para aprovar um trabalho e, quando isso ocorre, já querem pronto para amanhã. Eles não levam em conta (na realidade, fingem que não sabem) que a aprovação do layout é apenas meio caminho andado. A arte-finalização, que consiste em transformar o esboço em produto final é um trabalho minucioso e requer muita atenção. E tem também a fase da impressão gráfica. Só depois desses passos a entrega vai ser feita e, a essa altura é bom ir preparado, porque, com certeza, o cliente vai querer pagar com cheque para 30 dias.

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abril, 2008
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