sexta-feira, 10 de outubro de 2008

Pelado, Pelado...



Foi assim...
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No sábado daquele final de semana logo cedinho encontrei o meu milharal completamente destruído. Costumava me referir assim, milharal, aos quatro pés de milho que eu cultivava num estreito canteiro nos fundos do quintal. Nessa época morávamos numa casa de tábuas e telhas de amianto que já tinha sido viveiro de pombos, adaptado às pressas para abrigar a mim – o menor da família -, minhas duas irmãs, meu pai e minha mãe. A nossa antiga casa tinha sido condenada pelas constantes enchentes que nos fez perder até os chinelos.
Sei que pode parecer exagero, e eu nem sou menina para exagerar tanto, mas vai lá que falar milharal é bem mais fácil do que falar quatro-pés-de-milho-nos-fundos-do-quintal! E eu que sempre fui de falar pouco, economizar nas palavras é coisa que faço muito bem.
Voltando ao milharal destruído e àquela manhã de sábado daquele final de semana, lembrei no que a professora dizia e repetia sobre cuidar bem das plantas e dos animais. E eles, os adultos, o que fazem enquanto isso? O que fazem eles além de mandar as crianças serem boazinhas?
Quando meu pai percebeu a minha tristeza pela destruição do milharal ele foi me explicar que havia necessidade de reforçar o muro que estava caindo e uma tal de fundação ia ser cavada bem ali, exatamente ali.
Àquela altura o meu tio já tinha juntado o que sobrara dos pés de milho, quebrado, amassado, pisado, arrastado tudo e socado no latão de lixo.
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E o sábado foi passando...
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Após o almoço, os meus primos mais velhos, sabendo do motivo do meu aborrecimento, falaram que me levariam à praia no domingo... Uhuuu! Praia....! Sempre gostei muito de praia e bem que eu estava precisando de um tema para escrever a redação da volta às aulas... Nem lembrava mais da última vez que tinha ido à praia... Acho que aquela sunga nem cabia mais em mim... Falei com a minha mãe e lá foi ela procurar a sunga azul e amarela que tinha sido presente da minha madrinha.A verdade é que a sunga ficou apertada... É, eu tinha crescido... Mas, até que ficou legal... Não tinha outro jeito mesmo...
Fui dormir pensando na praia.... E nem havia esquecido do milharal...
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Domingo, sol, praia, Flamengôôô....!!!!!!!
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A praia do Flamengo estava lotada! O cheiro da maresia, a areia branca e fina e toda aquela gente em seus guarda-sóis e óculos e chapéus, davam um colorido todo especial naquele domingo de verão.
Cruzamos uma boa extensão da orla com cuidado para não incomodar as meninas grandinhas bronzeando-se e atraindo olhares dos marmanjos. Chegamos a um local que o meu primo mais velho julgou adequado e nos instalamos. Tinha uns meninos jogando pelada ali perto, e uns pestinhas correndo não se sabe do quê.
Tirei o meu short, doido pra cair na água. Sempre fui assim meio pato d’água. Foi quando... o meu primo mais velho percebeu que eu tinha vestido a sunga ao contrário! A frente, onde tinham as pontas dos cadarços, estava para trás... E agora?
A sugestão dele era boa... Boa... Pra ele é que não era, claro! Imagina se ele faria o que estava sugerindo para mim: “vai lá na água, se abaixa, tira a sunga, e veste ela direito!”
Tão simples!
Argumentar com adulto não adianta nada, eles se acham donos da verdade. O que gostaria de dizer pra ele naquele momento era que eu nem me importaria de ficar com a frente da sunga para trás. O que eu queria mesmo era me divertir naquela água... Mas, passou do tempo de dizer alguma coisa e eu acabei não dizendo nada e fui...
Entrei na água, aproveitei que veio uma onda, tirei a sunga. Já estava quase colocando-a de volta, do lado certo, quando a tal onda resolveu voltar e... me deixou lá.... com a bunda de fora pra quem quisesse ver. A vontade que meu deu naquele momento era de me enterrar na areia. De ser um tatuí, esses bichinhos que fazem buracos e entram pela areia da praia... Um tatuí, que vontade de ser um tatuí, me enterrar, me esconder, e só sair quando o sol já tivesse ido embora e levado com ele a metade da praia que me viu pelado.
No caminho de volta pra barraca ainda com a vergonha estampada na cara vermelha fui pensando se pelo menos os meus primos não tinham visto a cena do meu nudismo... e..., como se não bastasse isso tudo, uma menina (de onde mesmo saiu aquela menina?) correndo (de quem ou exatamente de quê?) me deu um esbarrão e... rolamos os dois pelo chão... A menina, branquinha e de sardas ficou parecendo um bife à milanesa, eu idem. Ficamos os dois meio sem-graça. Ela me olhou e deu um sorrisinho, assim, lindo... E sumiu... Eu queria sumir dali também.
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Voltando pra casa...
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Fui pensando qual seria o tema da minha redação. É claro que sobre aquelas trapalhadas do final de semana na praia não poderia ser!
A menina, é claro!
Vou escrever que nos tornamos amigos depois daquele encontrão na praia. A professora sempre diz que devemos ser criativos. Não teria nada demais "aumentar" algumas coisas.
Escreveria que a menina havia me convidado pra plantar um milharal no quintal dela, que era bem grande, e o pai dela não ia cavar nenhuma fundação para reforçar muro nenhum. E que lá na casa dela tinha um viveiro com pássaros bem bonitos e um miquinho que gostava de ouvir historinhas.
Claro que escreveria que um dia deixamos a porta do viveiro aberta para os pássaros passearem do lado de fora e os adultos ficaram bravos com a gente...
Vou escrever também sobre um dia que a porta do viveiro sumiu e...
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É bom acabar aqui porque, isso já tá virando outra história...
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outubro, 2008
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Um comentário:

Miranda disse...

Maravilhoso!!!
Eu como testemunha ocular da História,alem de emocionado pela lembrança, orgulhoso da redação.
Parabens primo, um abraço do primo mais velho: Adalberto.