segunda-feira, 1 de dezembro de 2008

História de pescador



Pescador era o seu nome ou, pelo menos, o nome pelo qual era conhecido. Ninguém sabia ao certo se gostava de ser tratado assim, pois ele nada falava a respeito com quem quer que fosse. Muito menos se apresentara sob outro nome. Adaptara-se a ele. Adotara-o. Tornara-o seu. Uns diziam que, simplesmente, não havia outro nome.
E todo santo dia, na esquina do mercado onde armava a sua banca Pescador botava banca de especialista e era aguardado ansiosamente pela freguesia ávida por sua mercadoria de qualidade incomparável.
Mas não eram só as mulheres tagarelas que montavam a guarda à sua espera. Rondava por ali, um bando de gatos vindo de várias partes do bairro que completava a sua comissão de frente.
A verdade era que Pescador tinha mais afinidade pelos felinos do que pelas freguesas faladeiras e, entre um atendimento e outro, era visto acariciando um bichano. A sua preferida era uma gatinha branca e cinza que não se misturava com os demais. Ela ficava sempre atrás de um poste, próximo da banca. Pescador escolhia um peixe fresco e levava para ela que o devorava rapidamente. Quando se satisfazia, a gatinha demonstrava lambendo charmosamente os bigodes e dando aquela espreguiçada, depois se enroscava pelas pernas dele e por ali ficava, dona do pedaço.
Esgotados os peixes da banca, sempre por volta das duas da tarde, lá ia Pescador para a bebedeira.
E eram porres homéricos que tomava. E só chegava ao seu barraco se arrastando. O cheiro de peixe ainda exalava pelas suas entranhas.
Diziam que era pela Ivonete que bebia.
Ivonete era uma mulata boazuda, que quando passava, balançava os quartos e deixava Pescador de quatro. Ela morou por um bom tempo com ele e foi embora de um dia pra noite. Sumiu... Escafedeu-se só com a roupa do corpo. Os poucos pertences que possuía ficaram pela casa jogados, empoeirados... Amontoados de sucessivas decepções.
Pescador sentiu falta dela na cama, de madrugada, quando a maré já estava baixa. Mesmo assim saiu para pescar e vender o peixe na banca. Mas naquele dia nem conseguiu botar muita banca... Estava cabisbaixo e triste...
Quando voltou pra casa, à tardinha, encontrou a irmã da mulata que deu o recado. Ivonete tinha ido pra Capital. Acompanhada. Não queria mais viver entre cheiro de peixe e bafo de cachaça...
Naquela mesma noite Pescador tomou o maior porre da sua vida. E outros se sucederam, piores ainda.
Mesmo sem se conformar com a perda, continuou ele tocando a sua vidinha tosca.
Pescava de madrugada, vendia os peixes na banca da esquina do mercado, alimentava os gatos, e..., afogava as suas mágoas na cachaça. Era tudo sempre igual.
Um ano se passou e soube que Ivonete estava de neném novo...
(Aquela filha da puta dizia que não podia ter criança. Ela não queria era ter um filho fedendo a peixe!...)
Em seu sono sobressaltado, sonhava com a mulata de volta na sua cama, que rangia quando se reviravam de tesão, suas pernas lhe trançando, fazendo o seu corpo alquebrado estremecer de prazer... Queria tê-la em seu desejo de macho... Já tão ameaçado...
Estava sozinho, cheirava mal... Era um bêbado...
Sua saúde, debilitada pela friagem das madrugadas, pelo consumo excessivo de álcool e cigarros, ia de mal a pior. Tossia tanto que sentia o gosto amargo do sangue na boca, misturado ao catarro quente que escarrava pelo chão da sala vazia.
Ivonete onde estaria? Talvez requebrando em algum show pra alegria dos turistas. Sofria dessa ausência de todo os dias.
O seu barraco de tábuas estava mais frio naquela noite... Pescador estava muito doente... Ardia em febre, tremores, alucinações... Chamava por Ivonete...
Pela manhã, como de costume, no mesmo local e horário de sempre, os gatos e as freguesas o aguardavam...
Mas Pescador não apareceu.
Não é possível, ele nunca se atrasa! - diziam as senhoras alcoviteiras, que cansadas de tanto esperar foram comprar o peixe congelado no mercado da esquina.
Os gatos, sem perder a pose, se lambiam ao sol da manhã.
Esperaram, esperaram...
E, ao meio-dia, quando o sol esquentou, procuraram abrigo na marquise do mercado.
E foram se dispersando...
Não sabiam onde nem por que, mas seus instintos felinos mandavam buscar comida em outras bandas.
A chuva da tarde espantou os gatos pingados que ainda resistiam à espera.
Apenas uma gatinha permaneceu, atrás do poste, olhando comprido para a esquina, até o anoitecer...
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dezembro, 2008
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terça-feira, 25 de novembro de 2008

Estrelas de outrora



Quando eu era jovem uma pessoa me disse que as estrelas do céu eram almas das pessoas que partiam.
Aos poucos fui entendendo que não era bem assim...
O mundo que me parecia esperançoso, doce e bondoso, começou a transformar-se num imenso antro de crueldades.
Acabei por me transformar numa pessoa fria, cercada pela realidade dos fatos.
A partir daí, as almas boas que povoavam o céu desertaram para sempre. E o céu ficou mais negro, espelhando toda crueldadade desse planeta.. Guerras, hecatombes, malefícios tomaram conta do povo terreno e não me admira que o céu tenha ficado sem as suas estrelas de outrora...

quarta-feira, 12 de novembro de 2008

Era uma vez...



Não fiques assustada e não adiantas me procurar que não vais conseguir me enxergar. Sou assim meio abstrato, sabe? Não sabe? Bem, não sei se vou conseguir explicar-te porque nem eu mesmo sei como é isso. Sou mais ou menos, assim, assim, uma voz... Uma voz que te fala ao vivo... Sou mais ou menos, assim, assim, duas mãos... Mãos que te escrevem palavras sem entonação, com alguma enrolação, mas, acredite, que vêm do coração. Sei que estás surpresa, e que te causa uma certa estranheza, mas sei que me conheces... e muito. Muito menos que imaginas e muito mais que deverias. Na verdade somos muito mais que velhos amigos, muito, muito mais que uma grande paixão... Sei que és muito melhor em intróitos do que eu, mas eu estou tentando escrever um intróito, do intróito de uma história que não vai ser lida nos livros mas bem que poderia começar com “Era uma vez”, ou “Outra vez”, ou “Certa vez”, ou “Uma vez”, ou “Mais outra vez”, ou “Mais vezes e vezes” ou até com um “Foi assim...”
Vou começar com um...
Era uma vez...

Era uma vez um menino, desses meninos espertos, mal-entendidos pelos meninos da sua idade, que observava estrelas e cultivava girassóis em seu mundo fechado pra visitação.
E uma menina que encantava o mundo com sua criAção, escrevia na Lua pela noite a dentro e de manhã contava histórias que tinha sonhado acordada pela madrugada...
Um dia (é claro que tem que ter “um dia”, “aquele dia” especial e marcante), eles se encontraram pelas páginas da vida e logo perceberam que deveriam compartilhar muito mais que poucas palavras.
Então o menino ensinou a menina a cultivar girassóis e a observar estrelas...
Esperta, a menina logo, logo aprendeu que não devia fazer a dança da chuva para os girassóis e os seus olhos brilharam de satisfação quando o feixe incandescente de uma estrela cadente iluminou a noite primaveril.
E a menina, mostrou todo o encanto da sua criAção por meio da linguagem que fala ao coração e pelas madrugadas gravaram na Lua as palavras mais doces que tinham na imaginAção.
O menino tentou ensinar pra menina o sentido do “vai passar” mas a menina falou “eu sou menina e isso nunca vou aceitar...”
A menina tentou ensinar pro menino que lá as nuvenzinhas deveriam permanecer, mas isso o menino insistiu em não aprender...
Hoje vivem os dois perdidos no mundo, achados no coração de cada um e quem ousaria duvidar que foram felizes para sempre?

Para quem achar que é uma história um pouco curta eu sugiro a leitura nas entrelinhas... Quem souber ler nas entrelinhas conseguirá ler tudo o que não foi escrito. Entenderá que uma história que acaba, não se acaba com uma interrogação. Quem souber ler nas entrelinhas vai sentir cada beijo trocado, cada carícia, cada olhar, cada cumplicidade e vai ficar sabendo tudo, tudo, sobre essa história infinita que é bem maior que caberia em páginas e páginas soltas ou unidas escritas da vida vivida.
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Para uma pessoa especial com um beijo...
Feliz aniversário!
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quarta-feira, 29 de outubro de 2008

Fim da linha



Olhou para o relógio naquela manhã e conferiu: eram 5:30h e o sol fazia o seu espetáculo matinal. Não sabia porque ainda se preocupava com o tempo. Já não fazia diferença. Mas de que haveria de se ocupar? Não tinha paciência para jogos. Assistir tv, desistiu por ver inutilidade em tudo. Ler, não chegava nada que lhe animasse...
Sentado no banquinho de todos os dias, ouvia o canto do bem-te-vi também de todos os dias e vivia das lembranças de outros dias... que ficavam cada vez mais para trás.

(Vida! Trabalhei, projetei, construí, trabalhei, tive filhos, criei filhos, trabalhei, trabalhei, trabalhei... e agora? Vida?)

Era o dia de seu aniversário. Fazia 92 anos. Lembrou da caixa de fósforos que um dia achara no pátio e pensou em comprar um bolinho na cantina e à noitinha acender um daqueles palitos e cantar "parabéns pra você..." Ninguém ia notar mesmo. A não ser pelo brilho do fogo e achassem que um velho maluco estava querendo incendiar o asilo.

(Asilo... lugar onde depositam velhos que insistem em não morrer... é como chegar ao fim da linha e se perguntar: onde estão todos? Quando voltariam? Voltariam para me ver? Uma espera que desespera.)

Não se lembrava qual foi a última vez que falou com alguém. Não que estivesse sozinho, muito menos que alguma doença o impedisse de falar. Não era isso. Mas que fizera do silêncio a sua companhia e das lembranças o seu passatempo. Passava as horas relembrando, e por que não, revivendo os momentos felizes da sua vida. Via-se no aconchego do seu lar, nos melhores de seus dias e sentia um aperto por dentro... uma saudade... do seu cantinho...

(Talvez lembrassem do aniversário. Trouxessem um presente... uma camisa, um par de meias... um pijama. Droga! Queria ou não queria que lembrassem? No fundo, queria, sim. Mas, quem lembraria? Aquela velharia alienada que vivia ali não lembrava nem da última vez que tinha respirado. Os filhos... será que lembrariam... será que lembram... de mim?)

Toca um sinal bem conhecido... hora do almoço... Os pássaros, o céu, o vento, imperturbáveis. Mais um dia que passa.
Entardece, escurece... hora de se recolher...
Decidiu não comprar o bolinho para não ter que falar com o velho da cantina. E também porque era mesmo uma idéia meio doida acender fogo dentro do asilo.
Deitou... e enquanto o sono não vinha pensava e pensava...

(Será que até a morte me esqueceu?)
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Agosto, 2007
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segunda-feira, 27 de outubro de 2008

Maldito OCR!



Demitido, e, pior, demitido pelo maldito OCR!
Maldito OCR que me colocou no olho da rua!
Bem que eu devia ter dado mais importância quando começaram os papos de demissão na Revista. Com a facilidade da internet muitos colaboradores passaram a enviar os seus trabalhos via e-mail e isso fez com que a digitação se baseasse apenas nas matérias extraídas de livros antigos.
Foi quando surgiu o famigerado OCR. Inicialmente parecia que não ia emplacar. Os resultados não eram satisfatórios e a equipe de revisores dizia que o OCR errava mais do que os digitadores. E nós, digitadores, nos divertíamos com isso... Mas, outros OCRs surgiram e a cada versão, melhor se tornava e menos erros ocorriam. No dia da minha demissão eu senti algo pesado no ar... Meus colegas de trabalho mais próximos estavam monossilábicos, não me encaravam... Quando fui chamado ao RH pelo serviço de som da empresa, olhei em volta e o pessoal estava com a cara enterrada nos seus computadores.
DEMISSÃO!
Doze digitadores, eu inclusive, no olho da rua. A justificativa: corte de custos. Eu sabia, entretanto, que o culpado tinha sido o maldito OCR.
Lembro quando saí da Revista, desempregado, desorientado e a Paulinha da recepção com cara de “não sei de nada” veio com aquelas frases prontas que não enganam ninguém: “você é bom no que faz, rapidinho vai estar empregado”. E outra pérola: “depois deixa um curriculum que vou enviar para uns amigos”. Segui pensando o que fazer com a minha habilidade e destreza em digitar 350 caracteres por minuto... Pensando... No Carlitos e em seu "Tempos modernos"...
E como o OCR não me saiu da cabeça, resolvi saber direitinho como essa engenhoca funciona. Primeiramente OCR significa optical character recognition (reconhecedor ótico de caracteres) e, por meio dessa tecnologia é possível digitalizar um texto impresso e obter um arquivo editável. Atualmente, a grande maioria dos scanners acompanha pelo menos um programa de OCR, que pode ser usado para substituir digitadores cheios de mania e que consomem grandes quantidades de café durante o dia e têm o costume, entre outros, de fazer resenha esportiva antes, durante e após o expediente.
Assim, desempregado, os dias se sucederam, e meses...
Saía cedo com vários curriculuns na pasta e voltava já à tardinha... desolado! Nada!
Então a minha ficha caiu pra valer. Percebi que além de desempregado eu era um desempregado despreparado. Não tinha feito nenhum curso de reciclagem, um treinamento sequer durante o período que trabalhei na Revista. Estava completamente desatualizado...
Parti, então, para o corpo-a-corpo nessa nova etapa da minha vida. Tinha que me preparar para conseguir emprego e parar de ir em entrevistas só por ir.
Atualmente presto serviços de manutenção em máquina copiadora e, pasmem, conserto até scanners providos de OCR!
E, para não dizer que sou de guardar mágoas, hoje, ao perceber a dificuldade de uma jovem, ensinei-a a escanear e a editar um texto usando nada mais, nada menos do que o maldito OCR.
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junho, 2008
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segunda-feira, 20 de outubro de 2008

"Freela"



Não tinha costume de acordar tão cedo, mas naquele dia não tinha outro jeito.
Olho pela janela para ver como está a cara do tempo... É, o calor vai continuar. Recolho os CDs com os trabalhos que preparei pela madrugada. Deus queira que esteja tudo certo. Lembro-me de ter cochilado várias vezes sobre a mesa do computador. Beijo a minha Lu que dorme tranqüila na sua caminha. Se tem uma coisa que gosto, essa coisa é de me sentir pai. Não lembro mais de como é me sentir filho. Não sei mais se algum dia fui criança. Ser pai eu sempre fui, desde a criança que não lembro que fui. Saio sem tomar café, na rua sinto o ar abafado da manhã no meu rosto de barba não feita.

Sentar no Metrô àquela hora é impossível, aliás, entrar já é pura aventura. Encontro um canto ligeiramente vago e de lá observo a cara de sono do povo madrugador. Uma jovem olha para as unhas o tempo todo, parece não gostar do que vê. Uma criança se desgarra da mãe que corre feito louca atrás do pestinha pelo vagão lotado. Um homem de boné e óculos dorme a sono solto e a sua cabeça pende pro lado de uma senhora que se mexe e tosse, na vã tentativa de acordar o dorminhoco. Duas mocinhas bem vestidas conversam sobre empregos, entrevistas, chefes... Um jornal se abre ao meu lado e eu, tentado pela notícia do meu time, faço uma leitura bem dinâmica, antes que o dono vire a página.

Finalmente, chega a minha estação! Nem preciso me preocupar em sair, sou “cuspido” para fora do vagão pela enorme massa que se afunila na pequena passagem. Não havia percebido o quanto pequena é a porta do Metrô. E nem adianta reclamar das encoxadas...

O trabalho que estou levando para aprovação é o esboço de um cartaz. A pessoa que encomendou marcou comigo às 6 da manhã. Isso são horas para se ver alguma coisa? Bem, cliente é cliente e aquele clichê de que eles têm sempre razão martela a minha cabeça. Cabeça que dói... Não posso ficar com o ventilador tão próximo de mim. Mas, com os mosquitos já viciados em inseticida, só o bom e velho ventilador para afastar os predadores do meu sangue colesterado. Ainda mais com essa epidemia de dengue que assola o Rio...

Fazer freela significa ficar até as tantas da madrugada com a cara enterrada na tela do computador aprontando trabalhos, sempre com muita urgência. O pior é quando o cliente olha o esboço do trabalho, também conhecido como layout, e diz: “cara, tá ótimo, só não gostei da cor e essa figura tá muito grande, tira essa tarja, muda essa fonte, dá um destaque aqui, bota itálico ali...” Resumindo: tá tudo uma bosta!

Chego ao local marcado antes de todo mundo. Um solitário e sonolento atendente me manda sentar e aguardar. No rádio toca Start me up. Depois de insensatos minutos, chega a criatura! E, olha, milagres acontecem: o layout foi aprovado e, para não dizer que foi sem alteração, ele pediu para tirar um destaque na forma de retângulo que eu perdi preciosos 40 minutos imaginando uma forma de inserir. Talvez se aquela tarja não estivesse lá, o cliente ia querer que a colocasse. Ou será que foi preciosismo meu? Saio apressado antes que o indivíduo mude de idéia e também porque o meu expediente começa às 9, no Centro, já passam das 8:30 e eu ainda estou em Copa.

Esses freelas são a salvação da lavoura mas o desgaste é muito grande também. É comum os clientes demorarem vários dias para aprovar um trabalho e, quando isso ocorre, já querem pronto para amanhã. Eles não levam em conta (na realidade, fingem que não sabem) que a aprovação do layout é apenas meio caminho andado. A arte-finalização, que consiste em transformar o esboço em produto final é um trabalho minucioso e requer muita atenção. E tem também a fase da impressão gráfica. Só depois desses passos a entrega vai ser feita e, a essa altura é bom ir preparado, porque, com certeza, o cliente vai querer pagar com cheque para 30 dias.

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abril, 2008
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quarta-feira, 15 de outubro de 2008

Doce de coração



Aconteceu, nos meus onze anos de uma adolescência de menino com muita vontade de comer guloseimas açucaradas.
Mas, não se confunda! Não estou me referido a qualquer guloseima açucarada, não. Tinha que ser exatamente aquele doce e eu tinha um motivo especial por desejá-lo tanto.
Vislumbrei a solução para acalmar a minha salivação quando ganhei uma bolsa de estudos para fazer um curso de inglês. Naquela época não havia um monte de cursos como existem hoje. Fui um privilegiado pelo meu esforço.
Eu morava em Inhaúma e o curso era em Vaz Lobo, ambos subúrbios do Rio. Eram dois ônibus para ir e dois para voltar.
O dinheiro que a minha mãe me dava era contadinho para as passagens e resolvi, um dia, fazer um dos percursos a pé para, com o dinheiro de uma passagem, comprar o tão desejado doce.
Dormi pensando naquele coração que eu queria morder de tanta alegria e, só de imaginar, já podia sentir o sabor. O cheiro era inconfundível.
Na manhã seguinte, acordei mais cedo, na verdade eu nem consegui dormir naquela noite e também não consegui tomar o café da manhã. Só pensava naquele doce coração, digo, coração de doce de batata doce.
Andei, andei e andei mais um pouco e consegui chegar em Vaz Lobo economizando o dinheiro para o meu desejo de consumo.
Fui lá todo feliz (sabe como são meninos felizes, não sabe?). Saí da loja agarrado com o meu coração que eu pretendia comer bem aos pedacinhos. Eu disse isso mesmo, pretendia, porque não estava tão agarrado assim, o doce caiu inteirinho da minha mão e foi direto para uma poça de água e lama! Eu ainda fiquei alguns segundos olhando para ele, sem acreditar no que tinha acontecido.
Naquele momento eu fiz uma promessa para mim mesmo: quando crescesse e começasse a trabalhar, eu ia lá naquela loja e compraria não só um, mas vários doces e comeria todos eles, até não poder mais...
Assim fiz, quando chegou a hora.
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outubro, 2008
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segunda-feira, 13 de outubro de 2008

Meu mundo sou eu



Passou dos limites!
Não consigo mais conviver com pessoas que me ignoram. Não agüento mais!
Será que eles estão certos o tempo todo e eu errado?
Penso nisso várias vezes e sempre chego a conclusão que... não sei! O que sei é que os dois me excluem de tudo. E como se não bastasse o Pedro tá dando em cima da Aninha... Tanta garota na rua... Logo a Aninha!?! E o Tiago, é claro, dá o maior apoio! Hummm... dupla de descarados!
Bem... deixa eu me apresentar. Sou Bruno, tenho 12 anos e estou vivendo em crise com essa família que o meu pai me deu de presente. Sei que você pode pensar que é coisa de criança, que sou temperamental, que estou com ciúmes da minha namoradinha, ou "onde estão os pais dessa criança que não lhe dão um castigo?"
Vou falar dos meus pais. Meu pai é um sério empresário do ramo de bebidas, quase não o vejo. Acho até que ele não faz muita questão disso... Minha mãe de verdade morreu. A minha madrasta é médica legista. Não sei exatamente o que ela faz só sei que trabalha à noite e dorme durante quase todo o dia. O Pedro e o Tiago são filhos dela. Um tem 14 e o outro 16 anos de idade.
O que não me sai da cabeça é que tudo poderia ser diferente se minha mãe de verdade estivesse comigo. Quem sabe eu teria um irmão de verdade que pensasse igual a mim... Será que se eu tivesse um irmão de verdade ele pensaria igual a mim? Será que ele ia gostar de ler "O pequeno príncipe" da mesma forma que eu gosto?
Eu sei que sou diferente. Não gosto de video-game nem de desenho japonês. O que eu gosto mesmo é de ler, escrever... escrever muito. Acho que isso incomoda tanto as pessoas que vivem querendo me internar.
Uma vez ouvi a Yara — a empregada — falar: "esse menino tá doente! Ficou a manhã inteira dentro de casa, escrevendo!" Se eu não fosse um garoto educado poderia perguntar: "por que você se preocupa tanto comigo? Me deixa em paz e vai cuidar da tua vida! Mas, eu tive que engolir mais essa.
Sigo pelas ruas, pensando... acho que meu mundo sou eu...
O pior que começou a chover... cada pingão! Vai cair um temporal e tanto. Hora de voltar para casa.
Entro pelo portão e encontro a casa silenciosa... Acho que ninguém notou a minha ausência.
Chego na sala e... "Parabéns pra você, nesta data querida, muitas felicidades..." Hoje... meu aniversário??? e eu pensando... achando que... deixa pra lá...
A sala toda colorida com bolas e figuras sorridentes. Um bolo em formato de livro aberto enfeita a mesa que tem também refrigerante, pipoca e docinhos em forma de lápis, borracha... Meu pai bate palmas... sorrindo! E, olha, a doutora Cláudia acordada! Meus primos e tios, os colegas de rua, acho que a rua toda está na minha casa. E, mais importante de tudo: a Aninha com umas borboletinhas enfeitando os cabelos e um vestidinho azul, lindo, lindo! Momento marcante: o beijo que recebi da Aninha... Fiquei vermelho de vergonha... Muito legal... até arrisquei uns passinhos de dança com ela... O Pedro ficou bem olhando!
Assim foi o dia do meu 13º aniversário. Estou acabando de escrever agora, antes de deitar. Amanhã eu sei exatamente como vai ser...
Hummm... que sono!!! O dia foi cheio!
Uma noite sonhei que era um escritor de sucesso. Eu estava numa mesa distribuindo autógrafos ao lado de uma enorme pilha de livros que ia diminuindo, diminuindo... diminuindo...Acho que é isso que quero ser...
Por hoje chega, vou dormir.
Boa noite!
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maio, 2008
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sábado, 11 de outubro de 2008

Dia de anjo



Setembro, ano 2001.
Os jornais estampavam o beicinho do Bush e as imagens do trágico atentado às Torres Gêmeas, recém ocorrido.
Fui ao mercado logo cedo comprar uns refrigerantes e mais umas coisinhas para a festa de aniversário da minha filha. Ainda não sabia, mas, um acontecimento inusitado ia sendo traçado nas malhas do destino. Na fila do caixa, depois de um tempo olhando pro nada, acabei notando uma pessoa, uma mulher, que estava logo na minha frente. Aparentava certo desconforto, dificuldades para respirar. Olhei-a mais detalhadamente e vi que era uma bonita mulher, boa altura, cabelos pretos e a pele branquinha. Vestia calça jeans, blusa vermelha, sandália baixa e tinha uma aliança no dedo da mão esquerda.
Perguntei se ela precisava de alguma coisa, um copo d’água, ou que chamasse alguém. Ela balançou a cabeça, respirou fundo, olhou pra frente. Eu tentei me distrair. Não consegui.
Observei-a passando as compras, pagando e se afastando. Era a minha vez, finalmente!
No caminho para o estacionamento lá estava ela! Apoiava-se numa pilastra e parecia meio alienada. Segurei em seu braço. Ela se apoiou em mim. Sua pele tinha um tom quase transparente.Vendo o desamparo da moça, me ofereci para deixá-la em casa. Ela concordou, falou onde morava e lá fui eu fazer a minha boa ação do dia. Não custava nada ajudá-la, mesmo que não fosse uma bela mulher, eu ajudaria. Acredite!
Partimos, eu a moça e as nossas compras.Trânsito ruim, buzinas e o mal-estar da minha acompanhante preocupava. Pensei no pior: “e se ela morresse no meu carro?” Às vezes não se encontra boa explicação nem mesmo para uma boa ação. Parei, ajustei o banco para deixar a cabeça da moça mais baixa. Não sei se ajudou, mas ela recobrou os sentidos. Perguntei qual era o seu nome e o número do seu telefone para o caso de ter que deixá-la em um hospital, já que os desmaios se sucediam com mais intensidade.
Ao ouvir a palavra “hospital” ela pareceu se apavorar. Segurou no meu braço com a força que lhe restava e me fez jurar que não a levaria para hospital nenhum. Que situação! Tentando escapar do trânsito que não fluía, acabei entrando numa rua que não conhecia bem. Rodei por uns instantes meio sem rumo. A moça levantou a cabeça e reconheceu o lugar. Coincidência ou não o marido dela prestava segurança numa empresa naquelas bandas. Resolvemos seguir para lá.
Eu estava mais perdido do que vascaíno em torcida rubro-negra. Qualquer sugestão era muito bem-vinda naquele momento.
Sobreveio outra crise, pior do que as anteriores... Droga, onde era a rua? Cheguei em frente a um galpão, portão grande, aberto. Sabia que era ali, só não me pergunte como. Entrei... Tinha uma viatura da empresa que fazia segurança no prédio.
Saí do carro, um segurança logo apareceu. Após uma explicação meio complicada, trouxeram um camarada com cara de poucos amigos e ar desconfiado. Percebendo de quem se tratava, tirei as compras que não me pertenciam do carro e fui colocando num canto. O segurança pegou a moça nos braços e a colocou na viatura. Ela voltou à consciência neste momento e me viu ali, estático, tentou sorrir e eu entendi que era um agradecimento... Falei que ia ficar bem...
No caminho para casa a minha mente ia processando o que havia acontecido. Pensava e pensava... Obra do acaso ou não, naquele dia, eu tinha sido colocado na posição de anjo na vida daquela mulher... É verdade, um anjo... Aquele tinha sido o meu dia de anjo.
Passado algum tempo, tive vontade de saber dela. Tentei encontrar o número que havia anotado mas não consegui recuperar. Fui ao local onde a deixei e me informaram que a empresa que prestava serviço de segurança havia sido trocada. Não consegui mais saber dela... Nunca a esqueci também...
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janeiro, 2008
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sexta-feira, 10 de outubro de 2008

Pelado, Pelado...



Foi assim...
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No sábado daquele final de semana logo cedinho encontrei o meu milharal completamente destruído. Costumava me referir assim, milharal, aos quatro pés de milho que eu cultivava num estreito canteiro nos fundos do quintal. Nessa época morávamos numa casa de tábuas e telhas de amianto que já tinha sido viveiro de pombos, adaptado às pressas para abrigar a mim – o menor da família -, minhas duas irmãs, meu pai e minha mãe. A nossa antiga casa tinha sido condenada pelas constantes enchentes que nos fez perder até os chinelos.
Sei que pode parecer exagero, e eu nem sou menina para exagerar tanto, mas vai lá que falar milharal é bem mais fácil do que falar quatro-pés-de-milho-nos-fundos-do-quintal! E eu que sempre fui de falar pouco, economizar nas palavras é coisa que faço muito bem.
Voltando ao milharal destruído e àquela manhã de sábado daquele final de semana, lembrei no que a professora dizia e repetia sobre cuidar bem das plantas e dos animais. E eles, os adultos, o que fazem enquanto isso? O que fazem eles além de mandar as crianças serem boazinhas?
Quando meu pai percebeu a minha tristeza pela destruição do milharal ele foi me explicar que havia necessidade de reforçar o muro que estava caindo e uma tal de fundação ia ser cavada bem ali, exatamente ali.
Àquela altura o meu tio já tinha juntado o que sobrara dos pés de milho, quebrado, amassado, pisado, arrastado tudo e socado no latão de lixo.
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E o sábado foi passando...
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Após o almoço, os meus primos mais velhos, sabendo do motivo do meu aborrecimento, falaram que me levariam à praia no domingo... Uhuuu! Praia....! Sempre gostei muito de praia e bem que eu estava precisando de um tema para escrever a redação da volta às aulas... Nem lembrava mais da última vez que tinha ido à praia... Acho que aquela sunga nem cabia mais em mim... Falei com a minha mãe e lá foi ela procurar a sunga azul e amarela que tinha sido presente da minha madrinha.A verdade é que a sunga ficou apertada... É, eu tinha crescido... Mas, até que ficou legal... Não tinha outro jeito mesmo...
Fui dormir pensando na praia.... E nem havia esquecido do milharal...
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Domingo, sol, praia, Flamengôôô....!!!!!!!
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A praia do Flamengo estava lotada! O cheiro da maresia, a areia branca e fina e toda aquela gente em seus guarda-sóis e óculos e chapéus, davam um colorido todo especial naquele domingo de verão.
Cruzamos uma boa extensão da orla com cuidado para não incomodar as meninas grandinhas bronzeando-se e atraindo olhares dos marmanjos. Chegamos a um local que o meu primo mais velho julgou adequado e nos instalamos. Tinha uns meninos jogando pelada ali perto, e uns pestinhas correndo não se sabe do quê.
Tirei o meu short, doido pra cair na água. Sempre fui assim meio pato d’água. Foi quando... o meu primo mais velho percebeu que eu tinha vestido a sunga ao contrário! A frente, onde tinham as pontas dos cadarços, estava para trás... E agora?
A sugestão dele era boa... Boa... Pra ele é que não era, claro! Imagina se ele faria o que estava sugerindo para mim: “vai lá na água, se abaixa, tira a sunga, e veste ela direito!”
Tão simples!
Argumentar com adulto não adianta nada, eles se acham donos da verdade. O que gostaria de dizer pra ele naquele momento era que eu nem me importaria de ficar com a frente da sunga para trás. O que eu queria mesmo era me divertir naquela água... Mas, passou do tempo de dizer alguma coisa e eu acabei não dizendo nada e fui...
Entrei na água, aproveitei que veio uma onda, tirei a sunga. Já estava quase colocando-a de volta, do lado certo, quando a tal onda resolveu voltar e... me deixou lá.... com a bunda de fora pra quem quisesse ver. A vontade que meu deu naquele momento era de me enterrar na areia. De ser um tatuí, esses bichinhos que fazem buracos e entram pela areia da praia... Um tatuí, que vontade de ser um tatuí, me enterrar, me esconder, e só sair quando o sol já tivesse ido embora e levado com ele a metade da praia que me viu pelado.
No caminho de volta pra barraca ainda com a vergonha estampada na cara vermelha fui pensando se pelo menos os meus primos não tinham visto a cena do meu nudismo... e..., como se não bastasse isso tudo, uma menina (de onde mesmo saiu aquela menina?) correndo (de quem ou exatamente de quê?) me deu um esbarrão e... rolamos os dois pelo chão... A menina, branquinha e de sardas ficou parecendo um bife à milanesa, eu idem. Ficamos os dois meio sem-graça. Ela me olhou e deu um sorrisinho, assim, lindo... E sumiu... Eu queria sumir dali também.
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Voltando pra casa...
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Fui pensando qual seria o tema da minha redação. É claro que sobre aquelas trapalhadas do final de semana na praia não poderia ser!
A menina, é claro!
Vou escrever que nos tornamos amigos depois daquele encontrão na praia. A professora sempre diz que devemos ser criativos. Não teria nada demais "aumentar" algumas coisas.
Escreveria que a menina havia me convidado pra plantar um milharal no quintal dela, que era bem grande, e o pai dela não ia cavar nenhuma fundação para reforçar muro nenhum. E que lá na casa dela tinha um viveiro com pássaros bem bonitos e um miquinho que gostava de ouvir historinhas.
Claro que escreveria que um dia deixamos a porta do viveiro aberta para os pássaros passearem do lado de fora e os adultos ficaram bravos com a gente...
Vou escrever também sobre um dia que a porta do viveiro sumiu e...
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É bom acabar aqui porque, isso já tá virando outra história...
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outubro, 2008
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